O acordo Mercosul-União Europeia pode expor gargalos logísticos que antes passavam despercebidos

O acordo Mercosul-União Europeia pode expor gargalos logísticos que antes passavam despercebidos

Com a entrada em vigor provisória do acordo entre Mercosul e União Europeia, grande parte das discussões no comércio exterior passou a girar em torno da redução tarifária, do aumento de competitividade e das oportunidades comerciais que podem surgir nos próximos anos. Mas queremos trazer uma perspectiva igualmente importante, embora menos mencionada: o efeito operacional e logístico que esse novo cenário pode gerar dentro das empresas. Aumentar o volume internacional não significa apenas vender mais ou importar mais. Significa também aumentar a pressão sobre processos, fornecedores, armazenagem, planejamento, compliance e capacidade logística. E é nesse momento que muitos gargalos começam a aparecer.   O acordo pode aumentar a pressão sobre operações que já operam no limite   Muitas empresas brasileiras ainda trabalham com estruturas de comércio exterior altamente dependentes de controles paralelos, validações manuais e baixa integração entre áreas. Enquanto o volume operacional permanece relativamente estável, parte dessas fragilidades consegue permanecer “inofensiva". O problema é que acordos comerciais tendem a aumentar:

  • Fluxo de operações;
  • Necessidade de previsibilidade;
  • Volume documental;
  • Pressão por prazo;
  • Exigência por rastreabilidade;
  • Necessidade de resposta rápida a variações do mercado.

Essas contingências criam o cenário ideal para que operações que já funcionavam no limite comecem a apresentar falhas de maiores proporções.   O ganho tributário pode ser perdido dentro da própria operação   Um dos maiores riscos nesse novo cenário é a empresa focar exclusivamente na redução tarifária e ignorar os custos gerados pela falta de estrutura operacional. Atrasos logísticos, armazenagem extra, falhas documentais, erros de classificação, falta de integração entre áreas e baixa previsibilidade podem consumir rapidamente o ganho obtido com o acordo. Ou seja: uma operação tributariamente mais competitiva não necessariamente se torna logisticamente mais eficiente. Sem planejamento, o ganho comercial pode ser neutralizado por gargalos internos.   Lead time passa a ter impacto ainda mais estratégico   Empresas que atuam no mercado europeu normalmente convivem com níveis maiores de exigência em relação a prazo, previsibilidade e estabilidade operacional. Nesse contexto, o lead time deixa de ser apenas uma métrica operacional e passa a ditar:

  • Competitividade;
  • Formação de preço;
  • Relacionamento comercial;
  • Gestão de estoque;
  • Capacidade de expansão internacional.

O desafio é que muitas empresas ainda possuem pouca visibilidade sobre o próprio fluxo logístico internacional. Em diversos casos, os problemas só aparecem quando a carga já está atrasada, parada ou gerando custos extras.   O acordo também aumenta a necessidade de integração entre áreas   Outro ponto importante é que operações internacionais mais sofisticadas exigem maior alinhamento entre logística, fiscal, compras, supply chain, comercial, compliance e despacho aduaneiro. O acordo Mercosul-UE não reflete apenas no departamento de comércio exterior, ele aumenta a necessidade de coordenação operacional entre diferentes áreas da empresa. E quanto maior o volume internacional, maior tende a ser o impacto de falhas de comunicação, retrabalho e ausência de processos estruturados.   A maturidade logística como diferencial competitivo   Durante muitos anos, a competitividade internacional esteve fortemente associada a preço. Mas o cenário internacional vem mudando rapidamente. Hoje, empresas mais competitivas são aquelas que conseguem combinar eficiência operacional, previsibilidade, capacidade de adaptação, gestão de riscos, visibilidade logística e capacidade analítica. Nesse contexto, a logística ocupa uma posição estratégica dentro do crescimento internacional das empresas.   O acordo pode acelerar uma transformação operacional inevitável   O acordo entre Mercosul e União Europeia representa uma oportunidade histórica para as empresas brasileiras, não há dúvidas disso.  Mas ele também aumenta o nível de exigência operacional para quem deseja competir em um ambiente internacional mais integrado e mais pressionado por eficiência. Nos próximos anos, a tendência é que empresas com operações mais estruturadas consigam absorver melhor os ganhos do acordo, enquanto operações frágeis enfrentarão maiores dificuldades para sustentar crescimento internacional com eficiência e previsibilidade.

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